Portugal e Canadá: duas políticas habitacionais, um mesmo desafio. O que podemos aprender?
- cstifelmann
- 3 de ago.
- 3 min de leitura

Depois de mais de 25 anos a trabalhar no Canadá e agora a desenvolver projetos em Portugal, tenho tido a oportunidade de observar dois sistemas habitacionais profundamente diferentes, mas que enfrentam exatamente o mesmo problema: como criar habitação acessível, de qualidade e em quantidade suficiente para responder às necessidades da população.
Embora os contextos económicos, sociais e institucionais sejam distintos, existem lições importantes que ambos os países podem aprender um com o outro.
O modelo canadiano
Nas últimas décadas, o Canadá reconheceu que o mercado, por si só, não conseguiria responder ao défice habitacional. Como resposta, os diferentes níveis de governo passaram a investir fortemente em programas como:
Financiamento de longo prazo para habitação acessível;
Incentivos à construção "purpose-built rental";
Parcerias público-privadas;
Financiamento através da CMHC - https://www.cmhc-schl.gc.ca/;
Catálogo digital de vivendas pré-aprovadas - Veja acima embora não acredito ser uma solução para Portugal.
Programas específicos para populações vulneráveis.
Ao mesmo tempo, muitas cidades iniciaram reformas profundas ao nível do zoning, permitindo maior densidade junto aos corredores de transporte público e incentivando o desenvolvimento de "missing middle housing", Incluindo a permissão para construção de multiplex/duplex onde somente vivendas unifamiliares eram possíveis, e muitas outras soluções. Muitas sem muito sucesso.
Apesar destes esforços, o aumento da imigração, o crescimento populacional e a escassez de mão-de-obra na construção continuam a pressionar significativamente o mercado, adicionado a dificuldade para obter financiamento com níveis de stress-test altos e ate pouco taxas de juros altas.
Com tantas dificuldades o mercado imobiliário Canadiano enfrenta uma crise não vista em 30 anos.
A realidade portuguesa
Portugal enfrenta hoje um desafio semelhante, mas por razões um pouco diferentes.
Durante muitos anos a construção de nova habitação manteve-se reduzida, enquanto fatores como:
Turismo;
Alojamento local;
Investimento internacional;
Aumento dos custos de construção;
Crescimento da procura urbana,
Estes fatores contribuíram para um aumento muito significativo dos preços da habitação. Nos últimos anos, o Governo português tem vindo a introduzir diversas medidas, entre elas:
Incentivos fiscais ao arrendamento;
Simplificação de alguns processos de licenciamento - Simplex Urbanístico 2026, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 108/2026, foi adiado para 1 de outubro de 2026. Esta evolução do regime de licenciamento foca-se na comunicação prévia, na redução de prazos camarários e na responsabilidade técnica.;
Programas de habitação pública;
Revisão de instrumentos de planeamento urbano;
Estímulos à reabilitação urbana.
Programa de redução de IVA para construção de habitações, já explicado em vários outros posts de colegas - https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/97-2026-1124493227
No entanto, continua a existir um dos maiores obstáculos identificados por praticamente todos os intervenientes do setor: o tempo necessário para transformar um terreno ou projeto numa habitação efetivamente construída.
Onde Portugal pode aprender com o Canadá
Na minha opinião, existem cinco áreas particularmente relevantes:
1. Maior previsibilidade regulamentar
Os investidores necessitam de regras claras e estáveis durante todo o ciclo do projeto.
2. Processos de aprovação mais rápidos
Reduzir meses, ou mesmo anos, de licenciamento pode ter um impacto muito superior a muitos incentivos financeiros.
3. Financiamento estruturado para habitação acessível
Modelos de financiamento de longo prazo permitem aumentar significativamente a oferta.
4. Maior integração entre planeamento urbano e mobilidade
As cidades canadianas têm vindo a concentrar densidade em torno dos principais corredores de transporte coletivo.
5. Colaboração institucional
Municípios, promotores, arquitetos, engenheiros e operadores habitacionais trabalham frequentemente de forma mais integrada desde as fases iniciais.
O que o Canadá pode aprender com Portugal
A aprendizagem também acontece no sentido inverso.
Portugal demonstra que:
A reabilitação urbana pode transformar centros históricos sem perder identidade;
Cidades compactas favorecem deslocações a pé e maior qualidade do espaço público;
Património e desenvolvimento podem coexistir;
O desenho urbano continua a desempenhar um papel central na criação de comunidades.
Em muitas cidades canadianas, existe ainda uma forte oportunidade para valorizar mais a escala humana, o espaço público e a identidade arquitetónica.
A verdadeira solução
Não acredito que exista uma solução exclusivamente financeira ou exclusivamente regulamentar. A habitação resulta do equilíbrio entre:
✔ políticas públicas consistentes;
✔ processos de licenciamento eficientes;
✔ financiamento adequado;
✔ investimento privado;
✔ planeamento urbano inteligente;
✔ qualidade arquitetónica.
Quando um destes elementos falha, todo o sistema perde eficiência. Mais do que discutir quem é responsável pela crise da habitação, talvez devêssemos concentrar-nos em criar sistemas que permitam construir melhor, mais depressa e com maior previsibilidade.
Porem, e com experiência no modelo Canadiano, todas estas políticas precisam de uma INTEGRACAO...... O que nao aconteceu no Canada e vejo o mesmo problema aqui em Portugal. Diversos setores governamentais a tentar resolver o problema com ações especificas mas sem um modelo integrado e consistente.
No final, o objetivo é comum em qualquer país: criar cidades mais inclusivas, sustentáveis e capazes de responder às necessidades das próximas gerações.
Gostaria de conhecer a opinião de profissionais que trabalham noutros países. Que políticas têm produzido melhores resultados na vossa experiência?



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